SPACE ORDIMAN

ROLE-PLAYING GAME SISTEMA IMERSIVO

O sistema de RPG de mesa de Space Ordiman resgata a essência sombria de clássicos como Vampiro: A Máscara, Call of Cthulhu, Lobisomem: O Apocalipse, Mago e Dungeons & Dragons, colocando os jogadores em um mundo mergulhado nas sombras, onde o segredo é a sobrevivência e a infiltração é o único caminho possível. Como agente de uma antiga Ordem Global, você deve descer aos confins de seitas distorcidas, enfrentar entidades vindas das camadas mais densas do plano espiritual e suportar revelações aterradoras para impedir o Grande Reset — um plano catastrófico que promete extinguir a humanidade até 2030. Nesse universo, seitas selaram alianças com forças corrosivas além do mundo físico, e o relógio agora avança implacável rumo a cinco anos de extinção.

2030 SERÁ O FIM

SOBRE 2030

Em 1980, um processo começou nas profundezas do plano espiritual — silencioso, metódico e construído com um único propósito: a extinção da humanidade. Não foi um movimento isolado, mas o primeiro sinal de uma operação vasta e calculada que vinha sendo preparada por inteligências que não pertencem ao nosso plano. O objetivo era simples em sua crueldade: transformar a Terra em uma brecha espiritual, um ponto de acesso permanente para entidades que jamais deveriam existir no mundo físico. A presença delas é corrosiva por si só — o tipo de força capaz de entortar a realidade, enfraquecer a estrutura do consciente e dissolver a sanidade humana como se fosse poeira ao vento.

Nos anos que se seguiram, o plano avançou sem interrupções. A cada década, novas manipulações eram introduzidas de forma quase imperceptível. Pequenos eventos, tragédias isoladas, anomalias espirituais e mudanças sutis no comportamento coletivo serviram como marcadores de que algo maior estava em movimento. Cada peça se encaixava com precisão. E em 2030, aquele que iniciou tudo — Ordiman, uma entidade que ascendeu do Submundo há gerações — deve atravessar a fronteira entre os mundos e acionar o que é conhecido nos registros ocultos como o Grande Reset. Quando esse processo começar, não haverá retorno possível. A humanidade não enfrentará uma guerra ou uma destruição física imediata — ela simplesmente deixará de ser o que é.

Diversos grupos humanos, organizados como cultos, seitas e sociedades secretas, alinharam-se voluntariamente a essas forças. Alguns o fizeram em busca de poder, outros atraídos por promessas de revelações proibidas, e muitos sequer compreendem o verdadeiro preço de sua devoção. A influência dessas organizações se espalha por instituições formais, por comunidades inteiras e por regiões esquecidas onde qualquer tipo de vigilância espiritual é impossível. Eles atuam como intermediários e facilitadores, preparando o terreno, enfraquecendo barreiras energéticas e garantindo que a chegada de Ordiman aconteça sem resistência significativa.

Ainda assim, a resistência existe. Pouca, fragmentada e por vezes desorganizada, mas existe. A Ordo Lux, uma organização antiga que opera nas sombras desde antes da queda das primeiras civilizações, acompanha esse processo desde os seus primórdios. Eles estudaram sinais, mapearam padrões e registraram cada interferência espiritual nas últimas décadas. Eles sabem o que está por vir. Sabem o que está em jogo. E sabem também que, se estiverem sozinhos, não conseguirão impedir o avanço do Grande Reset.

É aqui que o seu papel começa. Não como um escolhido, mas como alguém capaz de caminhar entre sombras sem se perder nelas. Sua missão é infiltrar esses grupos, descobrir seus movimentos, decifrar seus símbolos, reunir as informações que escondem e expor as conexões invisíveis que mantêm o plano vivo. Cada passo importa. Cada fragmento de verdade encontrado altera o equilíbrio. Cada decisão tomada no momento certo pode significar a diferença entre o fim e a sobrevivência. Se o Grande Reset for impedido, não será por força bruta ou intervenção divina — será pelas mãos daqueles que ousarem atravessar as trevas antes que elas consumam tudo.

HISTÓRIA

Para compreender o que está acontecendo agora, é necessário retornar a 1980, quando tudo realmente começou. Naquele ano, nas profundezas das camadas mais inferiores do Submundo, ocorreu uma reunião como jamais registrada. Aconteceu em uma vasta câmara esculpida a partir da própria escuridão, onde as paredes pareciam pulsar como tecido vivo. Presidindo o encontro estava Nocthyl, uma entidade conhecida nos arquivos ocultos apenas por relatos fragmentados — sempre descrita como algo que se movia como uma sombra, mas falava com absoluta clareza.

Nocthyl apresentou o que chamou de um avanço em contenção espiritual: uma tecnologia capaz de aprisionar a consciência sem que o indivíduo percebesse. Segundo ela, uma consciência desprendida da matéria — em seu estado puramente espiritual — poderia ser imersa em uma solução de plasma enriquecido. Esse plasma atuaria como condutor, transmitindo informações através da estrutura ectoplásmica do espírito. O resultado era uma realidade totalmente simulada, indistinguível da original, na qual a consciência aprisionada viveria, agiria e geraria energia como se nada tivesse acontecido.

O propósito não era punição. Era colheita. Dentro desses mundos artificiais, a consciência tornava-se uma fonte de energia estável, alimentando aqueles que engenheiravam a ilusão. O indivíduo jamais suspeitaria de nada. Não havia rebelião, nem sofrimento — apenas a extração silenciosa de vitalidade.

Durante aquela reunião, Nocthyl propôs expandir o processo para o universo material. Eles precisariam de um local físico onde pudessem se ancorar — um ponto de apoio que permitisse que o ciclo parasitário se espalhasse por múltiplos planos. Após longas deliberações, escolheram a Terra. A razão era estratégica: o alinhamento espacial da Terra com Saturno, um limiar entre o reino físico e os domínios sutis.

Saturno funciona como regulador de transições, um ponto onde as leis mudam e as fronteiras enfraquecem. Utilizando esse alinhamento, acreditavam que poderiam trazer à existência entidades de alta densidade — criaturas que haviam sido impedidas de se manifestar por milênios devido à sua frequência vibracional extremamente baixa. Essas entidades eram consideradas universalmente restritas, proibidas pelas leis fundamentais que regem a manifestação. Elas se recusaram a evoluir e, por isso, o universo as selou.

Mas a Terra, posicionada próximo a esse portal liminar, oferecia uma brecha. Com preparação e influência suficientes, essas entidades poderiam contornar as restrições e entrar no plano físico por meio das estruturas humanas. Essa foi a semente de tudo que se seguiu: a infiltração de cultos, a manipulação de instituições, a orquestração de eventos que levariam ao retorno de Ordiman em 2030.

E agora o ciclo está em sua fase final. A única pergunta restante é se alguém irá interferir antes que a chegada rompa a última barreira entre os dois mundos.

SEITAS

Na Terra, o desdobramento desse plano nunca ocorreu de forma isolada. Diversas seitas, células ocultistas e organizações clandestinas atuaram em cooperação direta com as forças por trás de Ordiman. Não são unidas por crença ou cultura, mas pelo mesmo objetivo: preparar o planeta para sua chegada. Ao longo das décadas, infiltraram-se de maneira silenciosa em eventos-chave, deixando marcas em catástrofes e tragédias que pareciam repentinas ou inexplicáveis. Seu propósito é duplo: desestabilizar a sociedade e gerar ondas de choque emocional capazes de densificar o campo psíquico da Terra, tornando-o compatível com entidades de baixa vibração.

Na Terra, o desdobramento desse plano nunca ocorreu de forma isolada. Diversas seitas, células ocultistas e organizações clandestinas atuaram em cooperação direta com as forças por trás de Ordiman. Não são unidas por crença, cultura ou território, mas pelo mesmo objetivo silencioso: preparar o planeta para sua chegada. Ao longo das décadas, infiltraram-se de maneira discreta em eventos-chave, manipulando circunstâncias e direcionando resultados que pareciam naturais. Muitas catástrofes e tragédias que surgiram de forma repentina ou inexplicável carregam, em algum nível, a marca dessas organizações. Seu propósito é duplo: desestabilizar a sociedade e gerar ondas de choque emocional capazes de densificar o campo psíquico da Terra, tornando-o compatível com entidades de baixa vibração que aguardam a abertura do caminho.

Suas ações ultrapassam o plano físico e avançam para o território imaterial. No ambiente digital, criam pânico, amplificam rumores e sustentam um fluxo contínuo de medo que molda a percepção coletiva. Operam através de padrões repetitivos, alimentando insegurança, reforçando narrativas de colapso e induzindo a sensação de que nada está sob controle. Cada crise viral funciona como combustível para alterar a frequência emocional do planeta sem que as pessoas percebam. Paralelamente, sinais da presença de Ordiman começaram a emergir com maior frequência. O fenômeno 3I/ATLAS, oficialmente interpretado como uma anomalia científica, é descrito nos arquivos da Ordo Lux como a primeira sombra energética da entidade avançando em direção à fronteira terrena — um indício de que o processo está progredindo.

Embora esses sinais sejam minimizados como falhas técnicas, distorções atmosféricas ou simples flutuações naturais, eles seguem uma sequência precisa, perceptível apenas para quem conhece o padrão oculto. Poucos conseguem enxergar a ligação entre eventos globais, manipulação emocional e fenômenos que desafiam as explicações tradicionais. Para a maioria, tudo parece caótico e desconexo. Mas, na verdade, cada acontecimento é uma engrenagem de uma estrutura muito maior. A aproximação de Ordiman já não pertence ao campo da especulação — o plano está quase concluído, e apenas aqueles que atuarem nas mesmas sombras onde ele foi concebido terão alguma chance de interferir antes que o desfecho seja inevitável.

AVENTURA

WOMBA

No caos do início dos anos 2000, em meio à devastação da Segunda Guerra do Congo, uma verdade ainda mais sombria se escondia sob as ruínas. Enquanto o mundo via fome, massacres e nações inteiras colapsando, algo muito mais antigo despertava nos bastidores — um culto quase esquecido da Tanzânia, ressurgindo como uma sombra rastejando para fora da história.

Relatos sussurrados falavam de sua chegada: sacerdotes que cruzavam fronteiras despercebidos, adquirindo grupos inteiros de pessoas não para escravidão ou recrutamento militar, mas para sacrifício ritual a um deus temido até mesmo nas lendas — Wombá. Mas Wombá nunca foi apenas um deus. Ele era a máscara de Nocthyl, uma entidade das camadas mais profundas do Inframundo, sustentada pelo próprio sofrimento.

Seu culto, os Wombaia, negociava com medo como moeda, sangue como oferenda e agonia como combustível sagrado. Seus ritos rasgavam as costuras da realidade, permitindo que fragmentos do Inframundo escorressem para o mundo físico. Governos afirmaram ter erradicado o culto durante a “Grande Caçada às Bruxas” na Tanzânia — uma purga tão violenta que aldeias inteiras foram queimadas até virar cinzas. A história oficial chama isso de progresso. Mas a verdade é simples: o culto nunca foi destruído. Apenas mudou de forma.

Os Wombaia infiltraram cidades, estruturas de poder, mercados e mentes. Abandonaram templos e construíram algo muito mais perigoso: uma religião oculta baseada não em um local físico, mas no plano mental — o campo psíquico que conecta os medos humanos à estrutura do universo. Nesse reino psicosférico, sacerdotes tocavam o impossível: paisagens de osso vivo, oceanos de fluido negro, cidades geométricas que se rearranjavam como máquinas pensantes. E no centro de cada visão havia a mesma presença colossal: Wombá/Nocthyl, sussurrando diretamente na mente.

As raízes do culto remontam a quase mil anos. Em 1030, uma tribo isolada realizou seiscentos dias consecutivos de sacrifícios tão brutais que o campo psíquico acima deles se rompeu — permitindo que Nocthyl fizesse seu primeiro contato com o mundo humano. Aterrorizada a princípio, a tribo acabou abraçando o “presente”. Tornaram-se os primeiros Wombaia, portadores de conhecimento proibido, comunicando-se por símbolos que vibravam com energia própria e projetando suas mentes em reinos que nunca deveriam ser vistos por humanos.

Ao longo dos séculos, o culto evoluiu para um sistema secreto de acesso — um mecanismo para abrir portas entre mundos. Através de dor, transe e projeção mental, contataram entidades que habitam as “Fissuras da Criação”, seres que desafiam biologia, linguagem e sanidade. Alguns sacerdotes retornaram de suas viagens distorcidos, porém iluminados; outros jamais voltaram.

Nos anos 2000, os Wombaia já não eram uma fé tribal, mas uma rede fantasma global, influenciando guerras, manipulando o medo digital e alimentando-se do desespero de nações em colapso. E agora, escondidos sob o ruído da vida moderna, seus rituais se encaminham para algo muito maior — uma convergência para a qual o mundo não está preparado.

NOCTHYL

Enquanto a África colapsava sob a guerra, algo diferente se desenrolava nas sombras. Uma equipe de mercenários — contratados por patrocinadores que jamais existiram em papel — recebeu uma ordem incomum: recuperar um manuscrito oculto perdido conhecido como Ubabu Ukunta. Nos círculos subterrâneos, o livro não era visto como um artefato, mas como uma arma. Dizia-se que suas páginas continham fórmulas capazes de abrir portais entre camadas da realidade, conectando o mundo humano a entidades muito além da compreensão.

Essas entidades não conquistavam com exércitos — manipulavam o Plano Psicosférico Mental, influenciando populações inteiras por meio de sonhos, símbolos e pensamentos intrusivos. Os mercenários não sabiam disso. Mas os homens que os contrataram entendiam o risco: localizar o Ubabu Ukunta significava entrar em territórios onde a realidade se enfraquecia e rituais há muito extintos ainda ecoavam.

A origem do livro remontava a uma ordem ancestral que registrou seu contato com um ser adorado na Tanzânia como Wombá. Mas Wombá era apenas uma máscara. Seu verdadeiro nome era Nocthyl, uma Criatura Local das camadas mais densas do Inframundo. Não era um deus — era um parasita moldado por milênios de caos, alimentando-se do terror e do resíduo vibracional do sofrimento humano.

Nocthyl chegou à Terra após seiscentos dias de sacrifício humano ininterrupto realizados por uma antiga população africana. O desespero desse povo distorceu a psicosfera com tamanha violência que abriu uma ponte para o Inframundo. A população que criou tal abertura foi exterminada pelos próprios rituais, mas Nocthyl permaneceu, prendendo-se à Terra ao longo dos séculos. Em cada cultura que tocou, recebeu novos nomes. Na Tanzânia, sobreviveu como Wombá, o espírito devorador de sangue.

Sua influência ressurgiu durante as guerras africanas. Sacerdotes wombaianos modernos, ocultos no caos, trafegaram milhares de civis para sacrifícios rituais. O líder entre eles, Kofi, buscava algo sem precedentes: um único rito envolvendo cinquenta mil vítimas, poderoso o bastante para rasgar a psicosfera permanentemente e permitir que Nocthyl acessasse o mundo físico de forma direta.

Incapaz de mover tantas pessoas para a Tanzânia, Kofi escolheu uma região remota do Congo, um lugar já vibrando com morte. Ali, ele e seus acólitos prepararam uma mina de carvão abandonada para servir como câmara ritual. Cinquenta mil prisioneiros foram empurrados para as profundezas; a entrada foi selada; uma fogueira colossal ardia dia e noite por semanas. Dentro da mina, o pânico consumiu os cativos até que suas vozes desapareceram no silêncio.

Testemunhas relataram que as chamas assumiam formas monstruosas e que o ar vibrava com uma energia antinatural. Um sacerdote, tomado pelo medo, renunciou a Wombá — e foi lançado na mina também. Quando o fogo enfim se apagou, o local já não era o mesmo. A psicosfera ali estava rompida. Qualquer pessoa que se aproximasse sentia náusea, vertigem e alucinações intrusivas. Alguns ouviram gritos carregados pelo vento; outros viram silhuetas sombrias com olhos flamejantes nos arredores.

UBABU UKUNTA

Por décadas, o Ubabu Ukunta circulou por jantares privados e salões ocultos, exibido apenas a um círculo seleto de colecionadores que compreendiam — ou fingiam compreender — seu peso. Aqueles que o abriam sentiam algo observando entre as linhas: vozes em idiomas inexistentes, formas tomando corpo na escuridão, uma pressão atrás dos olhos que nunca desaparecia. Alguns adoeceram. Outros enlouqueceram. Ainda assim, ninguém ousava se desfazer dele. Poder, mesmo amaldiçoado, jamais é descartado.

Isso mudou em 2015. O proprietário do manuscrito — um respeitado aristocrata parisiense — mantinha o livro trancado sob sua mansão, protegido por portas de aço. Em uma noite de novembro, intrusos entraram silenciosamente. Nenhum alarme, nenhuma fechadura quebrada. Moviam-se pela casa como se tivessem vivido ali por anos. Ao amanhecer, nada havia desaparecido além do manuscrito, envolto em um pano vermelho. O proprietário não registrou queixa. Dentro de um ano, estava morto — rumores diziam que o livro havia cobrado seu preço final.

O Ubabu Ukunta ressurgiu longe dos olhos do público, vendido no mercado subterrâneo europeu para um único comprador sussurrado nos círculos ocultistas: Øystein Yngve, um fanático norueguês obcecado em transcender a humanidade. Nascido em riqueza e criado por uma mãe ocultista, acreditava ser o resultado de um ritual — não de uma concepção. Dizia carregar em si a centelha de um deus esquecido, destinado a despertar.

Sua linhagem — real ou imaginada — ligava-o aos ritos violentos do black metal norueguês dos anos 1990, quando seguidores tentaram abrir feridas vibracionais no tecido da realidade. Quando Øystein adquiriu o manuscrito, isolou-se em uma mansão selada nos fiordes da Noruega. Vizinhos a quilômetros relataram sons estranhos — parte rugido, parte trovão — e luzes vermelhas pairando sobre o mar. Øystein passava seus dias lendo o livro em voz alta, cercado por velas negras e música distorcida, convencido de que se aproximava de uma metamorfose divina.

Seus diários descreviam veias ardentes, sonhos proféticos e vislumbres de um rosto no espelho que já não era o seu. Para ele, o Ubabu Ukunta não era história: era um projeto de ascensão. E por trás de tudo movia-se Nocthyl, a entidade do Inframundo outrora adorada como Wombá — um parasita cósmico buscando manifestação física e energética na Terra.

Sua chegada rasgaria o tecido do planeta para moldar um corpo de osso, sangue, metal e densidade impossível de suportar pela vida humana. Mais aterradora ainda seria a invasão energética: a contaminação do campo vibracional da Terra até que cada respiração, cada pensamento, cada sonho carregasse a marca de Nocthyl.

A humanidade não morreria de imediato — seria colhida. A Terra se tornaria um terreno de alimentação, seu sofrimento amplificado em um farol para outras Criaturas das camadas profundas: caçadores ancestrais de consciência atraídos pelo cheiro de um mundo em colapso.

E o Ubabu Ukunta, agora nas mãos de Øystein, já não era um simples relicário. Tornara-se uma porta.

MISSÃO

ENTENDENDO A MISSÃO

No final de 2009, uma perturbação silenciosa atravessou o plano mental da realidade como um eco vindo de regiões que não deveriam existir. Para a maioria das pessoas, aquilo não passou de um incômodo indefinido — uma noite mal dormida, um arrepio sem explicação, uma sensação momentânea de desorientação. Mas para aqueles que carregavam em seu sangue ou em sua mente os fragmentos de uma antiga linhagem oculta, o impacto foi imediato e inconfundível. Parecia um despertar abrupto, como se uma mão invisível pressionasse o interior do crânio, puxando a consciência para algo adormecido há séculos sob as camadas do mundo físico.

Essa linhagem remonta a eras esquecidas, a um ritual primordial que, por acidente ou desespero, abriu uma fenda para o Reino Inferior — uma região onde pensamentos têm peso, onde medo tem forma e onde o próprio tempo parece apodrecer. Uma presença atravessou essa brecha, não como um invasor, mas como uma sombra espalhando-se por gerações, observando, aguardando. Ela permaneceu latente durante séculos, adormecida, mas jamais ausente. O pulso de 2009 foi seu primeiro movimento coordenado desde a Idade Média, um chamado emitido não em palavras, mas em frequências baixas e opressivas que se infiltraram em sonhos, sensações e estados emocionais.

Em todos os continentes, pessoas registraram episódios repentinos de pânico, visões intrusivas de lugares que nunca haviam visto e a estranha certeza de estarem sendo observadas de dentro dos próprios pensamentos. Círculos ocultistas dispersos, células de cultos que haviam perdido contato entre si, de repente começaram a agir em sincronia, como se recebessem instruções telepáticas vindas de um mesmo núcleo. Seus rituais se alinharam, seus símbolos passaram a coincidir, suas práticas se tornaram espelhos umas das outras.

Ao mesmo tempo, o fenômeno infiltrou-se no mundo digital. Arquivos de áudio corrompidos, fóruns secretos, imagens distorcidas e padrões geométricos passaram a circular como novas ferramentas rituais. A densidade emocional — medo intenso, luto, confusão existencial — tornou-se o alimento perfeito para a entidade que havia despertado. Quanto maior o caos humano, mais forte sua influência se tornava. Entre 2010 e 2016, o mundo viu uma escalada de instabilidade social, psicológica e espiritual que acompanhava silenciosamente a expansão desse poder invisível.

Em 2020, durante o auge da turbulência global, a entidade atingiu pela primeira vez um estado de ancoragem parcial na Terra. Não se tratava de uma manifestação total — mas o suficiente para que sua presença vibracional se prendesse ao planeta como uma sombra adquirindo corpo. Desde então, a atividade dos cultos intensificou-se de maneira alarmante. Casos de alucinações coletivas, surtos de paranoia comunitária e colapsos psicológicos sem causa médica tornaram-se cada vez mais comuns.

INFILTRAR

No final de 2009, uma perturbação silenciosa atravessou o plano mental da realidade como um eco vindo de regiões que não deveriam existir. Para a maioria das pessoas, aquilo não passou de um incômodo indefinido — uma noite mal dormida, um arrepio sem explicação, uma sensação momentânea de desorientação. Mas para aqueles que carregavam em seu sangue ou em sua mente os fragmentos de uma antiga linhagem oculta, o impacto foi imediato e inconfundível. Parecia um despertar abrupto, como se uma mão invisível pressionasse o interior do crânio, puxando a consciência para algo adormecido há séculos sob as camadas do mundo físico.

Essa linhagem remonta a eras esquecidas, a um ritual primordial que, por acidente ou desespero, abriu uma fenda para o Reino Inferior — uma região onde pensamentos têm peso, onde medo tem forma e onde o próprio tempo parece apodrecer. Uma presença atravessou essa brecha, não como um invasor, mas como uma sombra espalhando-se por gerações, observando, aguardando. Ela permaneceu latente durante séculos, adormecida, mas jamais ausente. O pulso de 2009 foi seu primeiro movimento coordenado desde a Idade Média, um chamado emitido não em palavras, mas em frequências baixas e opressivas que se infiltraram em sonhos, sensações e estados emocionais.

Em todos os continentes, pessoas registraram episódios repentinos de pânico, visões intrusivas de lugares que nunca haviam visto e a estranha certeza de estarem sendo observadas de dentro dos próprios pensamentos. Círculos ocultistas dispersos, células de cultos que haviam perdido contato entre si, de repente começaram a agir em sincronia, como se recebessem instruções telepáticas vindas de um mesmo núcleo. Seus rituais se alinharam, seus símbolos passaram a coincidir, suas práticas se tornaram espelhos umas das outras.

Ao mesmo tempo, o fenômeno infiltrou-se no mundo digital. Arquivos de áudio corrompidos, fóruns secretos, imagens distorcidas e padrões geométricos passaram a circular como novas ferramentas rituais. A densidade emocional — medo intenso, luto, confusão existencial — tornou-se o alimento perfeito para a entidade que havia despertado. Quanto maior o caos humano, mais forte sua influência se tornava. Entre 2010 e 2016, o mundo viu uma escalada de instabilidade social, psicológica e espiritual que acompanhava silenciosamente a expansão desse poder invisível.

Em 2020, durante o auge da turbulência global, a entidade atingiu pela primeira vez um estado de ancoragem parcial na Terra. Não se tratava de uma manifestação total — mas o suficiente para que sua presença vibracional se prendesse ao planeta como uma sombra adquirindo corpo. Desde então, a atividade dos cultos intensificou-se de maneira alarmante. Casos de alucinações coletivas, surtos de paranoia comunitária e colapsos psicológicos sem causa médica tornaram-se cada vez mais comuns.

ORDO LUX

Antes de ser lançado ao mundo oculto que cresce nas sombras da humanidade, você será submetido ao treinamento integral da Ordo Lux — um processo rigoroso que não apenas prepara o corpo e a mente, mas reconstrói a sua percepção da realidade. Durante semanas, você será exposto a estímulos projetados para expandir seus limites, testar sua resiliência psicológica e ajustar sua sensibilidade às camadas invisíveis do plano mental. Nada disso é opcional. A Ordo Lux não treina recrutas; ela forja instrumentos de guerra. Você aprenderá a detectar presenças psíquicas, decifrar padrões vibracionais e reconhecer a influência de entidades que operam fora da biologia humana.

Após o treinamento inicial, virá a instrução avançada — o domínio das ferramentas tecnológicas criadas especialmente para operações contra cultos do Reino Inferior. A Ordo Lux lhe fornecerá dispositivos capazes de capturar distorções mentais, filtradores de sinais psíquicos, campos de ocultação acústica e protocolos de comunicação criptografados impossíveis de rastrear. Esses artefatos não são meras invenções científicas; muitos foram obtidos através de engenharia reversa de fenômenos anômalos. Alguns agentes afirmam que determinados equipamentos parecem “vivos”, reagindo às emoções ou intenções do usuário. Você aprenderá a usá-los como extensões do seu próprio corpo.

Com esse arsenal, você será enviado para infiltrar células do culto — grupos que operam dentro de templos clandestinos, fóruns ocultos, empresas de fachada e enclaves espirituais que alimentam o Reino Inferior com densidade emocional humana. Sua tarefa será se misturar, observar e coletar informações cruciais: nomes, padrões, rotas, símbolos, pontos de convergência. Em muitos casos, sua simples presença já será um risco. Você se aproximará de indivíduos marcados pela influência de entidades que corroem a mente. E quando a infiltração exigir proximidade extrema, você terá de se passar por um deles, recitando seus códigos, compreendendo seus rituais e testemunhando práticas que poucos suportariam sem enlouquecer.

Entretanto, a Ordo Lux é clara quanto a um ponto: este não é um trabalho apenas de observação. Em situações onde vidas humanas estão em risco ou quando uma célula cultista aproxima-se de um ritual crítico, você terá autorização total para executar alvos sem hesitação. A eliminação precisa, silenciosa e estratégica é parte essencial da doutrina. Você será treinado para neutralizar ameaças físicas, desarmar armadilhas psíquicas e destruir artefatos rituais antes que possam abrir novas fissuras entre os mundos. Suas mãos podem ser forçadas a agir com letalidade — e a Ordem espera que você o faça sem falhar.

Porque no fim, nada disso é sobre você. Nada é sobre a Ordo Lux. Tudo gira em torno do cronômetro oculto que avança em direção a 2030 — o ano previsto para a Convergência, o Breach Psíquico que conectará o Reino Inferior à Terra de maneira irreversível. Se as células do culto conseguirem seu propósito, a humanidade não será destruída instantaneamente, mas gradualmente consumida, transformada em alimento vibracional para entidades que jamais deveriam existir neste plano. Isto é o que está em jogo. Por isso, a missão se sobrepõe à moral, ao medo, ao cansaço e até à própria vida. Seu dever é evitar o colapso final — custe o que custar.

O GRANDE RESET

2030

Após o Evento de 2030, quando o céu se partiu como um véu fino e revelou a anatomia oculta do cosmos, a humanidade compreendeu que algo havia atravessado a fronteira do invisível. A Ordo Lux emergiu das sombras não como um governo, nem como uma religião, mas como um mecanismo silencioso de contenção. Você foi localizado entre aqueles que permaneceram sãos o suficiente para observar o impossível sem quebrar. A Ordem acredita que essa capacidade não é um acidente, mas uma resposta da própria consciência humana ao novo mundo. Agora, você será conduzido pelos corredores velados onde conhecimento proibido é estudado, e onde cada recruta é moldado para encarar o que não deveria existir.

Seu treinamento não será físico, embora o corpo ainda seja um instrumento útil. A verdadeira preparação ocorre na mente. A Ordo Lux desenvolveu tecnologias psicoacústicas, diagramas luminosos e métodos de quebra-percepção capazes de expandir ou retraí-lo no limite entre lucidez e delírio controlado. Você aprenderá a reconhecer padrões que já não obedecem às leis naturais. Aprenderá a ouvir frequências que não pertencem ao som, a ler símbolos que mudam quando observados, a resistir ao toque de conceitos que tentam habitar sua consciência. Cada sessão é uma ferida e uma revelação; cada avanço, um risco calculado de perder algo que você jamais recuperará.

Com a queda de toda tecnologia na Noite do Silêncio — o instante em que cada máquina do planeta morreu — centenas de cultos surgiram. Alguns são apenas desorientados; outros, porém, parecem ter recebido mensagens que não vêm de mentes humanas. Sua função será infiltrar-se nessas seitas sem ser consumido por elas. A Ordo Lux lhe fornecerá identidades, protocolos, instrumentos analógicos e artefatos que reagem a distorções cognitivas. Seu papel é observar, decifrar e sobreviver tempo suficiente para trazer de volta o que for possível: relatos, padrões rituais, nomes, vibrações, qualquer fragmento que ajude a Ordem a compreender o que está acontecendo por trás dos olhos dos devotos. Não há garantias de retorno — apenas a certeza da necessidade.

Toda missão atribuída pela Ordo Lux existe porque algo maior que a humanidade está em movimento. Não há hierarquia comum, nem recompensas, nem glórias. Há apenas a urgência. Se você falhar, não é você quem será perdido, mas uma parte do frágil equilíbrio que impede o planeta de deslizar para um estado irreversível de desordem cósmica. O fim de 2030 não é uma profecia, mas uma projeção baseada na aceleração dos fenômenos que começaram no dia em que o céu se abriu. Sua presença em campo não é heroica: é necessária, inevitável e, acima de tudo, custosa. A Ordo Lux não exige obediência; exige sacrifício consciente.

A cada mês que passa, a luz atrás das estrelas parece aproximar-se mais. As constelações mudam sutilmente, como se observassem a própria humanidade com interesse crescente. Pesquisadores da Ordem acreditam que o véu que nos separava do universo real não se rompeu por completo; ele apenas se afinou. E quando finalmente cair, tudo aquilo que está do outro lado deixará de ser visão e se tornará presença. Seu treinamento, suas infiltrações e suas missões não têm outro propósito senão retardar esse momento. Você não é um soldado, nem um espião. É um guardião temporário entre mundos — o último fragmento de lucidez antes que o desconhecido reclame o que é seu.

2031

Havia se passado um ano inteiro desde aquele dia impossível de 2030. Em 13 de janeiro, o mundo sentiu novamente o mesmo choque fugaz — uma vibração quase invisível sob a pele, um pulso breve que ninguém conseguiu explicar — e então o céu se abriu como uma cortina arrancada por mãos colossais. Galáxias que antes viviam a bilhões de anos-luz surgiram tão próximas que pareciam penduradas sobre cada horizonte. Nebulosas escorrendo como rios de luz, estrelas gigantes pulsando como corações expostos. O mundo, por um instante, ousou admirar. Mas esse instante durou pouco. O espanto foi esmagado pelo terror quando as máquinas morreram. Quando o firmamento acendeu, a Terra apagou.

Em poucos minutos, cada traço de tecnologia humana cessou como se o planeta tivesse sido desconectado da própria era moderna. Não houve explosões, nem curtos, nem alarmes: tudo apenas... parou. As redes elétricas colapsaram, os satélites silenciaram, aviões despencaram como pedras, hospitais mergulharam em escuridão. Telefones, computadores, motores — nada reagiu. Era como se a humanidade tivesse sido arrancada à força de seu futuro e devolvida para uma era sem ferramentas. As pessoas correram para o céu em busca de respostas, mas encontraram apenas aquele oceano cósmico impossível. E enquanto o mundo ainda tentava compreender o que significava existir sem tecnologia, a segunda calamidade começou.

A temperatura global subiu cinco graus em questão de horas, como se o planeta tivesse sido movido alguns passos mais perto do sol. Mas não era o sol: era o próprio tecido do cosmos, agora exposto e luminoso, irradiando calor. A linha do equador transformou-se em uma zona de morte quase instantânea. Florestas queimaram sem chama, oceanos evaporaram em neblinas tóxicas, cidades viraram estufas insuportáveis. Regiões inteiras, antes densamente povoadas, se converteram em desertos ardentes. Nações inteiras foram engolidas pelo calor antes mesmo de conseguir organizar uma resposta. Era como se o planeta estivesse sendo cozido de dentro para fora.

Diante do colapso climático repentino, a humanidade fez apenas o que poderia: fugiu. Em massa, sem direção, sem fronteiras, movendo-se em ondas gigantescas rumo aos polos — agora os únicos lugares ainda suportáveis para a vida humana. Foi o maior movimento migratório da história, embora ninguém estivesse mais ali para registrá-lo oficialmente. As antigas metrópoles tornaram-se esqueletos de concreto. Governos se dividiram, se esconderam ou desapareceram por completo. Exércitos colapsaram sem comunicação. O que restou da civilização se dispersou em pequenos refúgios, enclaves desesperados tentando criar ordem em meio ao caos absoluto. As pessoas reconstruíram o que podiam com ferramentas primitivas e conhecimento fragmentado.

E assim, em apenas um ano, tudo aquilo que havia levado séculos para ser construído se desfez como vapor. A internet, os satélites, a energia, a medicina moderna — tudo desapareceu de uma vez, como se tivesse sido apenas um sonho coletivo. Restou apenas o céu: mais brilhante, mais estranho, mais próximo. Um lembrete constante de que o mundo havia mudado para sempre, de que algo colossal havia tocado a Terra e arrancado sua antiga realidade pela raiz. A humanidade, pequena e vulnerável, olhava para cima e compreendia que o que quer que tivesse aberto o firmamento não havia terminado. O cosmos não estava mais distante. Ele estava à espreita — observando, aproximando-se, inevitável.

2034

Quatro anos haviam se passado desde o colapso. A humanidade regredira a algo primitivo — tribal, instintivo, desesperado. Tudo aquilo que antes parecia permanente havia sido arrancado sem aviso. A vida moderna tornara-se apenas memória, um eco distante do que um dia significara ser humano. Viver deixara de ser um caminho complexo e se tornara uma única palavra rígida e brutal: sobreviver. A fome esvaziou continentes inteiros, consumiu famílias, transformou terras férteis em arenas de disputa. A violência se tornou fronteira, lei e linguagem. Cada assentamento, cada pequeno grupo humano, erguia suas próprias regras escassas e sangrentas, lutando por migalhas de água, abrigo e silêncio.

Com o passar dos anos, uma certeza pesada se instalou dentro do coração humano: estava acabado. Não havia esperança, nem rumo, nem promessa. Não restava tecnologia, não restava organização, não restava sequer a ideia de futuro. As pessoas já não falavam em reconstrução, porque não havia mais nada para sustentar esse sonho. O mundo, do jeito que fora conhecido por milênios, tinha morrido. O planeta, mutilado e rígido sob o céu cósmico exposto, respirava como um animal ferido à beira da morte. Cinco anos de decadência contínua exauriram o que restava da civilização. Os poucos sobreviventes se moviam como sombras, arrastando-se por ruínas e desertos, tentando preservar apenas a própria consciência.

E então, quando já não havia nada em que acreditar, algo apareceu no céu. Foi num dia comum, sob aquele teto cósmico sempre presente, que a mudança começou. Uma forma distante emergiu na vastidão — lenta, profunda, de proporções impossíveis. Uma estrutura colossal cruzava o vazio, aproximando-se da Terra com uma lentidão calculada, como um animal pré-histórico que tivesse despertado de um sono de eras. A princípio, poucos perceberam. Mas conforme as semanas avançaram, a silhueta tornou-se inegável. Ela crescia. Ela se aproximava. E parecia… construir-se diante do olhar humano, detalhe após detalhe, borda após borda.

Foi então que as pessoas lembraram. A memória coletiva despertou com o peso de uma pedra jogada no fundo de um lago. Lembraram da descoberta em julho de 2025, quando um telescópio no Chile captou um objeto anômalo entrando no sistema solar. Lembraram do alvoroço global, dos medos, das manchetes enlouquecidas, dos debates científicos interrompidos pelo colapso do mundo. O objeto fora batizado de 3I/ATLAS, e nos quatro anos seguintes alimentou tanto a imaginação quanto o terror das últimas sociedades funcionais. Era um visitante interestelar, mas diferente de tudo já registrado. E agora, enquanto a humanidade cambaleava rumo à extinção, ele estava finalmente ali — visível a olho nu.

A cada semana, sua forma se tornava mais definida. Não era um cometa. Não era uma rocha errante. Não era nada natural. Suas linhas eram estruturadas demais. Suas dimensões, impossíveis demais. Seu movimento, preciso demais. Era um colosso silencioso, aproximando-se não como um corpo celeste, mas como algo construído, moldado com intenção. Conforme 3I/ATLAS rasgava o espaço em direção à Terra, a verdade se impôs com força brutal: aquilo não estava apenas passando pelo sistema solar. Aquilo estava vindo para cá. Estava seguindo uma rota exata, inevitável, imutável. E a Terra estava diretamente em seu caminho — como se fosse um destino programado desde antes do nascimento da humanidade.

2035

Em 2035, a humanidade havia alcançado seu estado mais sombrio. Nada na história — nenhuma guerra, praga, catástrofe climática ou queda de império — jamais produzira ruína tão profunda. O que restava dos seres humanos já não era sociedade, nem cultura, nem sequer organização. As pessoas haviam se reduzido ao instinto, vivendo dia após dia como criaturas que respiravam por inércia. Sobreviviam sem propósito, caminhavam sem destino, existiam sem qualquer luz que justificasse continuar. A civilização havia desaparecido por completo. O que restara eram primatas inteligentes que ainda conseguiam falar, mas que haviam perdido tudo que diferenciava humanidade de mera sobrevivência.

Fazia um ano desde que 3I/ATLAS revelara sua verdadeira forma no céu exposto. Agora ele pairava próximo à Lua — uma presença monstruosa, maior que a própria Terra, mas desprovida de qualquer comportamento natural. Não exercia gravidade, não emitia força, não gerava maré ou distorção. Era como se estivesse ali apenas para ser visto, ignorando as leis do cosmos. Sua estrutura, imensa e circular, lembrava um anel metálico sólido, como uma versão artificial e opaca dos anéis de Saturno. A superfície, de um cinza quase orgânico, às vezes exibia lampejos de luz que percorriam suas bordas, sugerindo algum tipo de funcionamento interno lento e deliberado. Mas, na maior parte do tempo, a colossal construção permanecia imóvel, silenciosa, observando.

Foi então, em meados de 2035, que tudo mudou de novo. Sem aviso, a estrutura se iluminou por completo, como se um motor inimaginável estivesse despertando após eras. Um brilho frio percorreu seu casco, e o colosso avançou em direção à Terra com uma velocidade que parecia impossível para algo tão grande. Em instantes, tomou grande parte do céu, transformando o firmamento em uma parede metálica viva. A humanidade assistiu em silêncio, apavorada mas resignada; anos de sofrimento, fome e perda haviam drenado tanto medo quanto esperança. Nada mais surpreendia, nada mais horrorizava, nada mais oferecia promessa. As pessoas olhavam para cima como quem encara um destino inescapável.

Foi nesse instante que os tubos desceram. De dentro da massa colossal, conduítes metálicos gigantescos se estenderam em direção ao planeta — centenas deles, talvez milhares — cada qual perfurando a superfície da Terra como agulhas divinas. Atravessaram continentes, montanhas, florestas e ruínas, firmando-se profundamente no solo. Cada tubo tinha o tamanho de um arranha-céu, uma torre oca que terminava ao nível do chão com uma única porta eletrônica. Quando alguém se aproximava, a porta se abria automaticamente, liberando um ar frio e artificial que não combinava com nada que ainda existia no mundo.

Acima de cada entrada, brilhava com clareza uma única palavra: “ORDIMAN.” Dentro, todos os tubos revelavam o mesmo interior: um salão branco, estéril, iluminado por luzes suaves, com uma tela central imensa no fundo. E então veio a voz. Vinda de alto-falantes invisíveis, falava a língua local com precisão absoluta, calma, quase reconfortante: “NÓS VIEMOS PARA SALVÁ-LOS. ENTREM. ACESSEM ORDIMAN.” A tela repetia a mensagem, junto de instruções adicionais e advertências perfeitamente traduzidas para cada idioma humano, até mesmo aqueles há muito esquecidos ou extintos. Por todo o planeta devastado, aquelas estruturas colossais erguiam-se como portais — oferecendo salvação, ou algo infinitamente mais sombrio.

2040

Não demorou muito. Ao final de 2035, quase toda a humanidade havia se rendido ao convite de Ordiman. Um por um, as pessoas entraram nas imensas estruturas, atravessaram a câmara branca e alcançaram o elevador que as aguardava no final do corredor. O interior era estranhamente elegante — limpo, moderno, acolhedor — mas a jornada parecia interminável. O elevador subia durante dias, conduzindo seus passageiros por um eixo vertical invisível que ultrapassava qualquer noção de distância conhecida na Terra.

Quando as portas finalmente se abriram, cada pessoa deu o primeiro passo em uma vastidão metálica incompreensível — maior do que qualquer cidade já construída, lisa e reluzente como a superfície de uma nave colossal. Atrás deles, as portas se selaram, e o elevador despencou sem emitir um único som. À frente, surgia um horizonte de estruturas tão gigantescas que faziam montanhas parecerem pequenas colinas. Então veio a caminhada. Guiados por trilhas luminosas, os recém-chegados cruzaram um labirinto de metal até chegarem ao impossível: um mundo.

Não era uma simulação. Não era uma réplica parcial. Era um mundo completo. Vivo. Lúcido. Familiar. Uma reconstrução perfeita da Terra — ou de algo perigosamente próximo a ela. Cidades, rios, oceanos, casas, países… tudo estava ali, restaurado como se o pesadelo dos últimos anos tivesse sido apagado da realidade. Muitos choraram ao ver aquilo. A sensação de normalidade era tão profunda, tão reconfortante, que parecia um milagre após uma era de sofrimento e desolação.

Dentro de apenas um ano, a humanidade se reorganizou nessa “nova Terra”, reassumindo suas antigas nações, reconstruindo rotinas, restabelecendo tradições. Foi como despertar de um período obscuro e retornar a um lar conhecido. Mas a ilusão não duraria. Aos poucos, detalhes estranhos começaram a emergir. A fauna e a flora eram mais amplas, mais diversas, mais perigosas do que qualquer registro do mundo original. Animais comuns viviam lado a lado com criaturas nunca catalogadas — algumas dóceis, outras capazes de devastar aldeias inteiras em uma única noite.

Espécies venenosas transmitiam doenças inéditas e imprevisíveis. Florestas inteiras abrigavam seres cuja existência desafiava a biologia terrestre. Os oceanos fervilhavam de vida desconhecida. Era um ecossistema maior, mais vibrante, e infinitamente mais ameaçador. E, conforme o tempo passava, uma verdade começou a se infiltrar entre as comunidades humanas: por mais perfeito que aquele mundo parecesse, por mais que imitasse sua antiga casa, eles não estavam sozinhos. Não completamente.

3030

Mil anos haviam se passado desde o Grande Reset. A humanidade vivera naquele novo mundo por tanto tempo que o evento havia se transformado em lenda — um mito distante, preservado apenas em fragmentos de histórias desconexas. As gerações que testemunharam o cataclismo desapareceram há séculos, e seus descendentes raramente questionavam de onde tinham vindo. A sociedade prosperara, avançara tecnologicamente e se adaptara por completo ao ecossistema hostil daquele plano: casas fortificadas, veículos blindados, armamentos especializados e uma cultura inteira voltada para a sobrevivência.

Foi então que, em algum ponto depois do ano 3000, algo impossível surgiu. Não eram seres físicos, mas espectros dourados, translúcidos, cintilantes — consciências puras, flutuando como chamas etéreas no ar. No início, apenas observavam em silêncio, como testemunhas invisíveis. Até que alguém, sensível o bastante, captou um leve tremor mental. Assim começou a descoberta: aquelas entidades se comunicavam pela mente, não por som. E o que revelaram mudou tudo para sempre.

Eles afirmaram que não pertenciam àquele mundo. Vinham de um plano mental superior, de onde observavam a humanidade havia séculos. De lá, viram a verdade que ninguém mais conseguia enxergar: a humanidade morrera em 2030. Todos. Sem exceção. Os habitantes da “nova Terra” não eram vivos — eram espíritos presos dentro de uma vasta simulação construída por um poder infernal. Nascimento, morte, memória, história… tudo era parte de um ciclo programado. As mesmas almas que viram o céu se rasgar em 2030 ainda estavam ali, repetindo existências infinitas com as lembranças apagadas a cada ciclo.

Essa revelação assolou o mundo. As pessoas perceberam que nada era físico: o ar, o solo, os corpos, as cidades — tudo era uma colônia espiritual projetada para mantê-las contidas. Mas os espectros dourados revelaram algo ainda mais extraordinário: eles haviam descoberto como enviar mensagens para o passado. Usando um método recém-desenvolvido de codificação de informação dentro de elétrons, conseguiam transmitir alertas para épocas anteriores, esperando que alguém fosse capaz de decodificá-los.

E alguém conseguiu. Alguns indivíduos pertencentes a uma antiga ordem secreta conhecida como Ordo Lux haviam interpretado fragmentos dessas transmissões. Esses fragmentos já estavam guiando seus passos, conduzindo-os em silêncio enquanto tentavam impedir o Grande Reset antes mesmo que ele acontecesse. No passado, sem saber, a batalha já havia começado.